segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sobre Meu Livro Inacabado

 Rio de Janeiro, 11 de abril de 2003.

Por Noemi Vieira.

“Olá Frederico,

Difícil falar sobre o seu livro sem me lembrar de grandes nomes da literatura como Hermann Hesse, Ítalo Calvino, Clarisse Lispector e, por que não dizer, Gustave Flaubert. Não que você os tenha lido e se apropriado de suas formas artísticas deliberadamente. Falo do tino metafísico que permeia a obra dos três primeiros e da obsessão estilística que persegue o último.
Parece-me que você usa a linguagem figurada para retratar o mundo físico (a matéria) – intenção que a priori torna-o paradoxal – como também o que há fora dele (metafísico). Ou seja, você conta a história de Aurora e Observador (personagens que possuem, inclusive, nomes muito significativos), sem deixar de sequenciar simultaneamente uma narração que permeia a subjetividade e o cosmos. (Será que a sua intenção foi essa mesmo?)
Questões que encontrei como a fugacidade do tempo e da aurora (no seu sentido semântico), a origem da vida, a efemeridade dos dias, a fluidez da matéria e a realidade dos sonhos denotam um ser inquieto com o mundo, inconformado com as estruturas e desiludido com a aparente solidez das coisas que nos rodeiam.
Hesse procura a verdade na contemplação, Calvino persegue a precisão das significações, Clarisse dialoga com a origem, com o princípio, com o Deus e, por fim, Flaubert constrói sua trama nas teias da sinuosidade da sintaxe, das frases subordinadas, das descrições quase obsessivas do mundo à volta. Você é um pouco de tudo isso. Um mosaico de idéias e formas ainda não amadurecidas (ou, talvez, inovadoras), que nos traz uma inquietude cá dentro da alma, ora por sabermos intuitivamente do que se trata, ora por não sermos pacientes o suficiente para esmiuçarmos a significação primeira de seu texto, tão diluída num mar de minudências e reflexões.
Algumas coisas me fogem à cognição, como "a barra de metal" (que será?), o verdadeiro vínculo entre Aurora e Observador e, ainda, o menino com o qual ela se desculpa. Posso pensar que as três personagens formam uma família (se sua intenção também é contar uma história real), e também posso pensar não ser nada disso.Todavia, acredito que só com a continuação do livro seria possível mais clareza e objetividade. O desenrolar dos fatos me elucidaram dúvidas acerca do enredo, se é que se quer dar um sentido compreensível a história em si.
De qualquer forma, isso não o exime do talento nato. O "veio literário" já é fato constatado. Precisa ser lapidado, moldado, trabalhado, mas a essência reflexiva, tão imprescindível aos escritores, respira frenética dentro de você.
Continue o livro. Dê corpo a sua história e vida as suas personagens. Isso não só revelará um talento "enterrado" no mundo da Geofísica como fará bem ao seu "eu" de dentro.

Beijos,
Noemi.

Ps. Constatei algumas inadequações de concordância e regência, mas nada que comprometa o todo da obra nem diminua o valor de seu trabalho.”

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Bactéreis & Olmenázeis

Bacteres somenuzes, baculeres semioses
Actônoda amebuses, bactéria zenoses
Renonze, fonfonze, fuzes!
Amacta sebone boses

Hemômeda bacuse ata
Requímota foena cuze
Amebíase gonata
Mastopena redanes duze

Abomena ema obilata
Octa ababeluse
Bacteres somenases...
Baculeres semanuses

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ao Obelisco II

Obelisco cor-de-brasa...
Flor mais linda do canteiro
Dormem, flor e jardineiro
Não se sab'em mesma casa

Mais pequeno este segundo
Porém muito mais brilhante
E, desde o primeiro instante
É seu todo amor do mundo

Sob o céu da lua nova
Surge um brilho inesperado
Toda luz é acalanto

Foge à vista o Obelisco
Deixa um sonho inacabado
E a alegria de um encanto.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sobre uma publicação compartilhada acerca da eleição presidencial


Recebi este texto (http://tijolaco.com.br/blog/?p=22172)hoje de manhã, encaminhado pelo meu chefe - o que, em si, não tem qualquer significado maior, mas é digno de nota - com o seguinte preâmbulo.

"Buenas,
votem em quem votarem, vale a reflexão. Há um tempo me dei conta de que a maior parte das pessoas que trabalhava comigo não sabia o nome da senhora que nos servia café, ou que fazia a limpeza. Sequer olhavam para o rosto delas ou agradeciam quando serviam o café ou recolhiam o lixo. Numa eleição sujinha como essa, recolher o lixo, ainda que da nossa alma, é importante."

Minha mensagem é que não sejamos mesquinhos em nossas análises sobre os programas sociais e de distribuição de renda que, até antes das eleições, eram tão criticados pela oposição, mas que agora reclama sua paternidade.

Nós, que somos classe-média, que pagamos 27,5% de imposto de renda, que somos descontados na fonte, temos sim a perder com o retorno de um governo neoliberal, como o que propõe Aécio Neves, uma vez que não esclarece sua política econômica, escondida atrás de conceitos genéricos e abstratos como "gestão profissional", aprimoramento, aperfeiçoamento, manutenção, meritocracia, sem citar, uma vez sequer, a palavra AVANÇO.

Tenho amigos que votam em Aécio, o que respeito. Mas, como nenhum deles é banqueiro, rentista ou realmente muito rico, confesso-lhes que não os entendo. Imperiosamente, porém, não quero ir além disso.

Estudei em instituições federais por quase dez anos da minha formação: de 1991 a 1994, na ETFBA, durante a transição de Collor para Itamar até o fim de seu mandato, e de 1995 a 2000 na UFBA, durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Como eu gostaria que houvesse um Ciências Sem Fronteiras quando estudante de graduação em Geofísica. Como eu gostaria que houvesse que, na mesma época,um Inglês sem fronteiras. Como eu gostaria de poder concorrer a uma vaga numa universidade pública em qualquer lugar do país em 1994, quando prestei vestibular. Por ora, restrinjo-me a meu bem maior, que é minha formação intelectual, a que devo meus proventos de hoje.

Só passei a gozar da qualidade-de-vida e poder de consumo do cidadão de classe-média apartir de 2002, quando me tornei empregado da Petrobrás e tenho extrema dificuldade para assimilar o que perderam as pessoas que lá estavam naquela época, e nela se mantiveram, nesses doze anos de governo do PT. Causa-me espécie que não se brilhe os olhos diante de tantos cartazes e anúncios de "contrata-se", "admite-se", "estamos recrutando 'sem experiência'", "venha trabalhar conosco" nas vitrines das lojas ou interior dos ônibus coletivos (sim, ando de ônibus, pra quem não mora no Rio), só para citar os serviços. Causa-me espécie que não se veja como positiva a possibilidade de escolha em que a última opção seja-se ser empregado doméstico, uma profissão de extrema responsabilidade e, por razões históricas (a meu ver, principalmente pela herança de nosso passado escravocrata) tão desprivilegiada.

Enfim, são muitas as coisas que fazem alguém querer votar no PSDB que, realmente, sou completamente incapaz de compreender. Mas não vou me delongar. Quero, apenas, usar o texto abaixo para pontuar nossos privilégios e acrescentar que, quando a base da pirâmide social sobe, nós subimos juntos. E que, embora ganhemos bem mais do que a maioria dos trabalhadores brasileiros, nós, classe-média, quer sejamos assalariados ou profissionais liberais de qualquer setor, temos muito a perder sem o AVANÇO das políticas sociais de distribuição de renda, sem a ascenção de mais gente à classe-média, sem pleno emprego - como agora. Não são índices como PIB, crescimento, "mercado", nem mesmo inflação que nos impede de encher os shoppings nem os aeroportos em vôos internacionais (ou estariam vazios), nem pagam nossas contas, nem enchem nossas barrigas, muito menos a de milhões de brasileiros que melhoraram de vida nos últimos doze anos.

Para encerrar eu e meu amigo - que temos um abismo de divergências políticas -  dividimos uma conta de vinho no mercado que deu mais de uma bolsa-família pra cada um. Eu quero é só ter de reclamar de futilidade, pelo amor de Deus!

Eu voto Dilma Roussef.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O MEU pé esquerdo

 Cuidado! Para  fazer sentido como ironia, o texto a seguir precisa que se conheça  o filme Meu Pé Esquerdo, onde eu interpreto Daniel Day Lewis. Agora, pode ler.


Não tenho deficiência psicomotora, ainda assim desenho muito mal com ambas as mãos, que dirá com os pés.

Tenho uma desidrose (porque deve haver outra, como des-hidrose, por exemplo - hi-hi-hi!) que só ataca meu pé esquerdo, e ele tem muito mais frieira do que o direito. Aí, toda vez que eu tomo banho, eu faço xixi no pé esquerdo e a frieira não ataca (hi-hi-hi).


domingo, 24 de junho de 2012

A Bordo do Western Pride

Estive a bordo do Western Pride por 14 dias em Abril de 2005. Novamente por embarcar num navio de aquisição de dados sísmicos, desta vez o Ramform Sovereing (vide foto), onde permanecerei por, pelo menos, 14 dias a partir de amanhã (25 de Junho de 2012). Aproveitando a oportunidade para introduzir minhas futuras impressões, segue uma mensagem aos amigos por época daquela primeira experiência.



Queridos,
Neste momento encontro-me  aos 22 graus sul de latitude e 39 graus oeste de longitude no rumo 319 graus norte (um giro de 319 a partir do Norte). Mais ou menos a 150 km da costa. Como podem perceber, estou longe, mas ainda assim é possível mandar notícias, como esta mensagem atesta.
O Western Pride é um navio contratado pela Petrobras para fazer aquisição de dados sísmicos sobre a área que abrange os campos de Marlim (maior produtor do Brasil) Marlim Sul e Marlim Leste. Mas isso é cultura geral enfadande. Vamos às minhas impressões.

Como estamos navegando numa área produtora de petróleo, a visão é muito curiosa, no mínimo. São 19:00h, noite portanto, e nos vemos numa cidade sobre o mar. As plataformas nas áreas produtoras são muito próximas umas das outras, de maneira a parecer literalmente uma cidade emersa em pleno Oceano Atlântico, com seus grandes condomínios, onde as pessoas moram e trabalham. Não só as luzes, mas as chamas das plataformas iluminam a paisagem noturna. As chamas, felizmente, não provêm de incêndio, mas de um equipamento próprio para queimar o gás que não é aproveitável. A esse propósito, mais um pouco de cultura geral: grande parte do gás produzido é reinjetado no reservatório para impedir uma queda muito grande de pressão; outra parte é consumida na própria plataforma, o equivalente ao consumo diário de uma cidade de 70.000 pessoas; e uma pequena parte, cerca de 3%, que não pode ser armazenada, é queimada num equipamento chamado "flare".

As instalações do navio são confortáveis, embora não sejam exatamente uma maravilha. A tripulação é internacional e divide-se em três grupos: a equipe sísmica, o pessoal de navegação e os que cuidam das máquinas, convés, limpeza, cozinha, etc. Há ingleses, americanos (maioria), filipinos (inclusive o cozinheiro), uma menina canadense e até alguns brasileiros. Por incrível que pareça, pouco falei em inglês, mas isso deve-se muito a esta minha presença contida e discreta, conhecida de todos. De negativo no navio, conto o forte ar condicionado nalguns cômodos.

O tempo tem sido bom de modo que o navio balança pouco, mas o suficiente para embalar o sono de qualquer um. Aliás, balanço de navio dá uma sonolência... A gente dorme que é uma beleza.
Estamos aqui num grupo de três, responsáveis pela fiscalização da aquisição sísmica, o que envolve o controle de qualidade do dado e o acompanhamento das operações quando da passagem próxima a plataformas e sondas operantes na área do levantamento, o que requer a comunicação com seus respectivos comandantes e uma intervenção para reposicionamento de navios-sonda e navios-plataforma (doravante, se necessário, FPSO). O trabalho no navio não para e a tripulação divide-se em dois grupos que trabalham 12 h/dia, com trocas ao meio-dia e à meia-noite.

O nosso trabalho fica mais concentrado no turno diurno e abrange também o envio de um relatório diário para a base, relacionando as operações e fazendo as observações pertinentes sobre a qualidade dos dados. Ainda não foi preciso ficar acordado durante a noite.
Meu desembarque está previsto para o dia 14 de abril e eu espero receber notícias de todos.
Beijos e abraços,
F.A.F.O.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Origem do Método (da resistividade)

Os primeiros estudos sobre a viabilidade de um método sensível à resistividade das rochas foram realizados em 1911 por Conrad Schlumberger, engenheiro de minas e então professor de Física da Ecole des Mines, em Paris (Allaud e Martin, 1977). Examinando amostras de minérios, Conrad ratificou resultados anteriores de que a condutividade elétrica era um parâmetro mais adequado que a densidade e a permeabilidade magné́tica para a distição entre um corpo mineralizado e a sua rocha encaixante. Este resultado foi também estendido a formações sedimentares, especialmente areias argilosas de depósitos aluviais recentes. Em experimentos com sedimentos, misturas de areia e argila saturadas por soluções salinas a diferentes concentrações, eram percorridas a uma corrente elé́trica, entre os eletrodos A e B e, com um par de eletrodos de potencial, M e N , ligados a um fone de ouvido, eram identificadas as linhas eqüipotencias.


Os primeiros testes de campo foram realizados entre 1912 e 1913 durante o experimento de
Val-Richter, com a substituição da fonte de audiofreqüência pela de corrente contínua, e do fone-de-ouvido por um galvanômetro. Também, os eletrodos de potencial tiveram de ser não-polarizáveis, em lugar dos antigos, de cobre, em virtude da estacionariedade da fonte.


O experimento consistiu da instalação dos dois eletrodos de corrente, sendo
A local e B, remoto, e os pontos eqüipotenciais eram identificados pela varredurra de posições ao entorno
de A com os eletrodos M e N ; a partir dos pontos, traçavam-se linhas eqüipotenciais. Ao experimento de Val-Richter, seguiram-se muitos outros que resultaram no registro de várias patentes.


Em 1915, o físico Frank Wenner, do U.S. Bureau of Standarts, anuncia o desenvolvimento de um arranjo com seu nome (Allaud e Martin, 1977).



Em 1920, Conrad publica seu primeiro trabalho, intitulado Etude sur la Prospection Életric du Sours-sol, descrevendo seus métodos e resultados. Nesse trabalho é introduzido o conceito de
resistividade aparente como parâmetro de referência, igual à razão entre a diferença de potencial, medida entre os eletrodos M e N, e a intensidade de corrente emitida, multiplicada por um fator, função da separação entre os 4 eletrodos. Além do cálculo simples, a resistividade aparente "reflete um valor médio, dependendo das resistividades e da distribuição espacial das várias formações dentro do volume total da superfície medida".


Fonte:
http://www.cpgg.ufba.br/gr-geof/geo213/trabalhos-graducao/Frederico-Oliveira.pdf



N.A
.: Cada vez que leio meu trabalho de graduação, encontro erros ou coisas que preferiria ter escrito de outra forma. A propósito, é bem fácil constatar quanto o texto carece de revisão, que eu não fiz na época.De qualquer forma, o que me motiva a publicá-lo é a saudade dos tempos de estudante.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Recado

Oi Fred,
Não esqueça de tirar essa roupa do varal de fora.
Não pode levar chuva e ficar cheirando a chulé.

Quitéria.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Meu Próximo Livro

Depois do sucesso de Inteligência Emocional, de Domenico de Masi, vem aí o próximo livro mais vendido (best-seller) do Brasil: Chantagem Emocional.

Aprenda truques e artimanhas para ter as pessoas motivadas a fazerem algo por você. Saiba como mexer com as emoções alheias de forma a atingir seus objetivos.

Chantagem Emocional, seu próximo guia de comportamento, seu eterno manual de sobrevivência.

Chantagem Emocional: breve, em todas as livrarias, bancas e máquinas de livros.

domingo, 5 de junho de 2011

Monólogos Além do Banquete

A neomúsica nilótica
A perfeição e a zona afótica
As chamas e a alma trépida
O perfume e as vestes fétidas

As curvas e a face exótica
A atitude hipócrita
A constituição rústica
A qualidade acústica

As análises insólitas
As várias óticas sórdidas
As fantasias impudicas
Sorriso e palavras lúdicas

A verdade encoberta
Aporta entre-aberta
A chance remota
A ausência de porta

As angústias, as maravilhas
As chamas isolando a ilha
A solidão, a partilha
Sem que uma das partes
Fuja da família
Ou, talvez muda, quase morta
Você se esconda atrás da porta.

Nota: este poema data do segundo semestre de 1991 e é a letra duma canção cujos acordes custei a lembrar-me. A pompa do título arrefece-se com a singeleza da melodia. A Gabriela Garcia.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Maloqueiros do Mundo (III)

Desde 2009 venho colecionando impressões sobre os EUA (Estados Unidos da América, também conhecido como iú-és-ei), em vindas (sim, eu estou aqui) por razões diversas. Estive em outras cidades, mas a que passei mais tempo e revisito nesta oportunidade é Houston, capital mundial da indústria de petróleo, mas nem por isso capital do Texas.

Houston é uma cidade grande, que bem parece uma passagem de carros, dado o tamanho das estradas, aqui chamadas freeways, e o espaço livre entre as edificações. Houston é uma cidade pensada para pessoas dentro de carros, e é aí que nos entramos, porque quem tá fora de um, parceiro, pode crer que é maloqueiro.

Andar a pé em Houston é, em si, uma atitude suspeita, porque só gente com cara suspeita se locomove assim. E deve ser mesmo muito arriscado fazê-lo, porque "por milhas e milhas" não se ve um pé de pessoa "na paleta" (ou "na 11", que significa "a pé" no dialeto crioulo soteropolitano). Assim, para quem acompanha minhas andanças pelo mundo, nada mais apropriado a alguém com meu perfil do que não dirigir. Aí, não deu outra: eu sou mais um maloqueiro batendo perna pelas drives'n roads de Houston.

Os pedestres de Houston são indubitavelmente pessoas mais humildes (do que todas as outras). Dos poucos pedestres, acho que um era branco, os demais eram negros ou hispânicos. Nao que ser preto ou ter cara de mexicano signifique ser pobre e fuleiro, mas, no caso, é. Então, só para não parecer que sou eu o preconceituoso, conto que vi uma moça de louro cabelo escorrido natural e inconfundíveis olhos azuis, esquálida e banguela, portando uma placa de papelão com o dizer "hungry", a pedir esmolas num semáforo do outter loop. Feito o contraponto, voltemos à ironia da realidade.

Eu, maloqueiro que sou, aproveitando o bom momento da economia brasileira, fui gastar os meus dolares nas liquidações diversas, onde se encontra muita coisa de marca a preço de porta-de-loja. Eu entrava nas lojas e saia, 2 horas depois, chei de saco prártico na mão, a andar até o hotel, parecendo um maloqueiro. Por falar em hotel, o que me hospedei tem ótimas instalaçoes, mas os hóspedes têm umas caras de maloqueiro da porra. Mas, tá, vamos seguindo.

Embora eu ache que pareça um maloqueiro nesses lugares estrangeiros, eu sei que eu sou uma pessoa direitinha, que tem seu emprego direitinho, recebe seu ordenado todo fim-de-mês... mas nesses caminhantes de Houston, realmente, não dá pra confiar. Aí, eu não vou mentir, quando eu ando pela rua, só porque eu não sou habilitado a dirigir (que fique bem claro que é só por isso), e vejo uma pessoa a pé, (mais uma vez) eu não vou mentir que bate o preconceito. E sobre isso, minha única conclusão é que aquilo que a gente ja' sabe: os pessoal são desunido.


Na próxima vez que vier à América (essa foi de sacanagem), eu espero realmente estar munido de carteira de habilitaçao para poder alugar um carro e, pelo menos, ter a sensação que acomete a nova classe-média brasileira e que eu desconheço nas minhas andanças - literalmente - nestas terras estrangeiras, de ascençao social. A ver (quando o meu chefe vai me mandar vir de novo!).


P.S.: Deixei para publicar do Brasil porque este computador nao fala brasileiro e não acerta botar acento.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Paris, 10 de dezembro de 2010

Neste primeiro dia completo em Paris, aprendi ser pouco recomendável seguir os passeios a pé do Lonely Planet no sentido contrário, particularmente quando não se vê o sol ou não se dispõe de um gps. São 14:30h e eu parei para almoçar. O restaurante está quente, ao menos perto do aquecedor - o que é bem razoável - e toca um jazz. Escolhi o equivalente ao plat du jour, já nem me lembro o preço. A opção é creme de abóbora de entrada, pato com batatas e café.
Hoje, mais cedo, no início desta quase malograda jornada, estava com terrível urgência excretora, ou, noutas palavras, uma desconcentrante vontade de urinar. Parei num café, tomei um expresso e comprei uma eau mineral que sequer abri. Ah, outra lição é que não se deve consumir água em abundância antes de se sair à rua, especialmente se a temperatura estiver em torno de 0 graus Celsius. Na verdade, não sei quanto está mais quente do que ontem, mas com certeza, abaixo dos 10 graus. Só me incomoda um pouco quando venta.
Pelo meu “plano” para hoje eu devo comprar o passe para os museus depois deste almoço. Foi uma coxa de pato frita, com batata rostie; sobremesa, um crême broulée. São 15:25h quero crer que ainda haja tempo.
Outra boa lição é que não se deve tomar Naldecon Noite às seis-e-meia da manhã, mesmo que se pretenda tirar um cochilo: dá uma leseira que eu nunca pensei possível (também, pudera, só o houvera tomada à noite).
    

domingo, 17 de abril de 2011

Sobre o entendimento (2)

Rio de Janeiro, 13 de Abril de 2011.

A primeira sobre o entendimento é esta.

Eu prefiro escolher com precisão minhas palavras para, assim, com precisão, compor minha comunicação. Vejamos, então, quanto êxito eu logro neste intento de fazer saber, a quem interessar possa, o que eu penso ou sinto, e sigamos o mote ao pé da letra. Comecemos pelo signo do AMIGO.

Certa feita, num outro momento da vida, recebi duma amiga um cartão lindo que, entre outras coisas de mesma beleza, falava sobre a importância de saber receber o amor que se lhe oferece. Corro o risco de haver perdido o cartão, apesar da intenção de para sempre guardá-lo, depois de tantas mudanças de domicílio, até de estado federado e de tantas outras coisas na vida. Ainda não sei, posso ter perdido o cartão, mas nunca o sentimento contido nas palavras de minha amiga.

Muito bem: mais do que uma frase de efeito, venho tendo ao longo da vida a oportunidade de experimentar e constatar quão importante é receber e aceitar o amor que se nos é oferecido por quem há a nossa volta; percebê-lo no quotidiano é muito menos trivial do que manifestá-lo explicitamente. Felizmente "a vida cria" ou - eu diria, simplesmente - há a realização da experiência em que o amor gratuito seja a única trivialidade imediatamente apreensível.

(Eu me repito muitas vezes neste texto. Vou seguir me repetindo.)

A lição sobre a importância de se perceber (palavra minha) e aceitar o amor que se lhe é oferecido eu devo à minha amiga Mina Kato. O encontro recente que me fez experimentá-lo eu devo à minha amiga Lysa, que me recebeu em sua casa. E esta carta eu dedico ao meu amigo Mateo, seu filho, que interrompeu seu dever-de-casa para vir até a porta e me dar um forte, longo e franco abraço de boas-vindas.

Lembre-se, neste texto, quando ler "amigo", da importância que atribuo à precisão na escolha das palavras. Por ora, que nos baste aquele signo, e deixemos os demais para outras cartas.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Devaneios

De repente bateu uma vontade louca
De montar uma fábrica de esperma
Mas 'inda que alguém suporte uma gozada eterna
Toda sua produção se faria pouca

Quem de vós se propões a tal feito?
Vale a pena salientar a recompensa:
Grana, fama, orgasmo, prole extensa...
Tesão de vida, hein? Quão perfeito!

Mas, não podeis esquecer o macete:
A excitação tem que ser constante
Pois deve estar sempre ereto, o cacete

E não fazeis dos vossos membros vareta
É ruim tratá-los como objetos
Pode cansá-los de tanta punheta!

NOTA: Este é o poema que deu origem aos "Devaneios". Foi escrito entre 1991 e 1992, quando então estudante da saudosa ETFBA (quando éramos felizes e eu sabia). Eu não tenho mais cópia em papel, mas foi dos poucos que guardei de cor. Relevem qualquer coisa, eu tinha 16 anos. :-)

quinta-feira, 31 de março de 2011

A Lanterna (II)

A pouca luz da Lanterna não excede uns poucos metros através da Penumbra, muito aquém donde a vista pode alcançar quando há luz. Umas tantas casas justapostas em declive contornam o estreito caminho até aquela que se chama "o buraco" por razões alheias a qualquer questionamentos. Antes, porém, o coche sobe por arruamentos também traçados ao sabor do pouso dos colonos e suas casas. É um caminho que parecia bem mais longo, por cuja razão seu fim foi de grato contento.

A penumbra é espessa o suficiente para conter a luz que jaz dentro da casa cavitante, o que ainda foge ao conhecimento do Andarilho e sua fraca lanterna. É sabido - por quem convém sabê-lo e mais ninguém - que segue o Andarilho através da Penumbra a fim, unicamente, de presentear a quem não sabe o Residente, talvez também o Visitante, se houver um, mas segue indefinidamente.

Num futuro próximo, havia o Andarilho de lembrar-se saudoso desse dia; não do que está por se suceder nesta casa, mas no que virá depois. O que gostaria se acontecesse não pôde se estender além do seu próprio pensamento.

(Continua)

sábado, 12 de março de 2011

Rascunho de Flores Rotas


Rota flor encaminhada
A porta desconhecida
Singela, mal desenhada,
Encabulada, contida

Rota flor, desenganada
Como uma causa perdida
Jaz ainda bem guardada
Rota, embrulhada, esquecida

Toma esta flor, assim, rota
Dá-lhe solo, luz e água,
Tudo que for preciso

E faz sonhar o florista
Com muitas flores a dar-te
Colhidas no paraíso.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Espelho no Fim do Dia (I)

Hoje não haverá uma próxima vez
E quanto mais durar a espera
Tanto maior será a perda

O limite não é um céu crepuscular
Nascer é o início de um caminho sem volta.




(Poema da adolescência. Veja a segunda parte.)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Maior Sabonete Reciclado do Mundo

Eu tenho pele seca, mas não costumo usar hidratante. Outrossim, tomo vários banhos por dia, o que me levou a escolher Dove como sabonete de uso regular, de forma que eu lave meu corpo e proveja alguma hidratação à minha pele. Isso é o preâmbulo.

Há uns anos, fui apresentado a um sabonete reciclado feito pela mãe de um amigo, quando ainda em Salvador. A imagem do sabonete multicolorido não me deixou mais, além de abrir ad aeternum o portal para uma nova dimensão no mundo das idéias (das minhas, claro).

Passados longos anos, resolvi, em 2009, iniciar a minha própria reciclagem de sabonetes, com a vantagem de ter o hábito consolidado de uso regular de uma marca específica de sabonete. Na medida em que iam minguando, minguando, até ficar difícil esfregar o corpo, guardava os sabonetes usados numa vasilha para a futura reciclagem. O negócio é que eu fui tomando gosto, acumulando cotocos de Dove, e o objetivo foi ganhando dimensão.

Hoje, contando 38 restos de sabonete Dove, já penso, quando eu levar a cabo meu projeto de reciclagem, irei para o Guinness pelo maior sabonete reciclado do mundo! A ver.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Trilogia da Loucura*

- Triologia da Loucura*(asterisco!). Um filme com três emocionantes histórias, das quais só duas têm a ver.

Na primeira história, um adolescente passa a reagir estranhamente quando contrariado por sua mãe, desferindo-lhe tapas e ponta-pés. Desesperada, a mulher vive a saga de tentar internar o filho no hospício.

Na segunda história, um homem de meia-idade muda drasticamente seus valores materiais depois de descobrir o adultério da esposa. Desvariado, o homem rasga seu ordenado na frente da mulher, que então corre contra o tempo tentando internar o homem no hospício.

Na terceira história, um menino adquire estranhos hábitos alimentares, para a repulsa de todos, que fazem um abaixo-assinado para tentar internar o menino no hospício.

- Trilogia da Loucura*(asterisco!).

O asterisco é porque bater na mãe não é caso de internação, mas sim de excomunhão. Só os outros dois casos são loucura, o resto é gaiatice ou descaramento. O problema é que o menino não é nem batizado...

- Trilogia da Loucura*(asterisco!). Breve, nos cinemas*.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Maloqueiros do Mundo (II)

Continuando com a visão distorcida, eurocêntrica e (escroquemente) irônica do resto do mundo, quero aproveitar o comentário de (Eduardo) Rossiter sobre o texto anterior para seguir com minha análise rasa e politicamente incorreta sobre esses maloqueiros, que saem de seus países pra bagunçar os das pessoas civilizadas, a exemplo do que eu mesmo fiz e, devo confessar, com o que muito me identifiquei.

Africanos

São muito numerosos em Paris, parecem até que sempre estiveram lá de tantos que são. O negro em Paris pode ser tudo, menos exótico, de tão comum. Não estive em nenhum bairro de africanos (nem de árabes, nem de marroquinos, nem de ciganos... parecia até que eu nem era maloqueiro), mas eles são realmente numerosos e braulizam com naturalidade.

A estação de Chatelêt, perto do Centre Pompidou, no bairro - bem turístico e "alternativo" - de Marais é muito grande e movimentada, encontro de várias linhas de metrô, além do trem, com estações mais espaçadas, que cruza a cidade levando (e trazendo) o povo (e os pessoal) dos arredores. Pois bem, a saída da plataforma de desembarque se dá por umas portas que se abrem automaticamente com a proximidade de quem sai. Eu cheguei a ver uma família inteira de negões esperando a porta abrir para entrarem sem pagar numa das vezes que passei, e foram várias: homem, mulher e carrinho de bebê com ele dentro, tudo junto. Também vi negões sozinhos usando o mesmo expediente, particularmente na hora do rush, quando a muvuca é maior. Diga-se de passagem (sem pagar), foi mais de uma vez que eu saí e um africano entrou (vamos generalizar para manter o mote).

Ser negão africano é natural e corriqueiro pra gente, até porque eles se passam por brasileiros tranqüilamente até falarem, exceto os americanos ou diplomatas. Mas para os franceses, esses africanos, como eu, são maloqueiros do mundo.


Franceses

Antes que alguém me chame de racista, quero contar o reverso da moeda. Até porque só a gente que é preto é que sabe.


Numa das muitas vezes que acessei a estação de metrô Saint Georges, eis que uma moçóila muito fofinha, que é, sem qualquer esforço, o que toda típica patricinha brasileira gostaria de ser, se dirige a meu amigo e diz qualquer coisa em Francês. Ele ignora e passa direto. Eu, malandro de muitos anos de buzu, entendi que ela queria passar com ele ou qualquer coisa do gênero, para usar o metrô sem pagar passagem. - Vacilão!, sentenciei, porque deixou de tirar aquele proveito da situação, da proximidade, do contato. E aí que com muita desenvoltura a mocinha pula a catraca e acessa a plataforma de embarque. Pra quem tem preconceito de cor, não dá pra entender como uma moça, assim, de família faça uma coisa dessas. Mas os franceses não pararam por aí.

Noutro dia, na mesma estação, um rapazote, que no Brasil seria tido como "de família", com a mesma destreza, pulou a catraca e inseriu-se no sistema de transporte de massa parisiense.


É por essas e outras que o taxista recifense, com trinta anos de praça no Rio, falou com convicção:

- Eu não gosto de gringo, eu gosto é do turista brasileiro (ênfase dele, tenho testemunhas, se alguém fizer questão).

Schopenhauer e o taxista compartilham do mesmo sentimento, em particular, sobre os franceses. Em "A Arte de Insultar", diz: " Todos os outros continentes têm macacos. A Europa tem os franceses. É a mesma coisa."

Agora, cá entre nós, esses franceses vêm pra cá querendo dar uma de chiques, mas, na verdade, na verdade, eles não sabem que nós sabemos que eles, na superfície, são uns maloqueiros do mundo. Se depender daquele taxista, eles vão andar é de ônibus!

Valeu.